Como transformei decisões duplicadas entre dois produtos em uma fundação compartilhada capaz de evoluir sem multiplicar complexidade.
REDUÇÃO-78%de inconsistênciasRelatos de inconsistência visual entre produtos caíram após a arquitetura de tokens.
ACELERAÇÃO-50%no tempo de prototipaçãoEstimativa de mercado até validação do dado oficial do projeto.
EFICIÊNCIA-30%no tempo de desenvolvimento front-endEstimativa de mercado até validação do dado oficial do projeto.
DISCIPLINAS CONECTADAS5Design, Engenharia, Produto, QA, IAOperando sobre uma única arquitetura compartilhada, em vez de bibliotecas isoladas por produto.
Neotrust e Aftersales evoluíam sobre estruturas de interface que acumulavam variações, exceções e decisões duplicadas. À medida que novos requisitos, marcas e temas surgiam, manter consistência exigia cada vez mais esforço.
DESAFIO
Evoluir sem multiplicar complexidade.
Permitir que os produtos evoluíssem de forma independente sem aumentar, na mesma proporção, o custo de manutenção, retrabalho e inconsistência.
ABORDAGEM
Organizar decisões antes de componentes.
Propus substituir uma biblioteca centrada em componentes por uma arquitetura de Design Tokens organizada em quatro camadas: Global, Brand, Semantic e Component.
IMPACTO
Uma fundação compartilhada.
A nova fundação passou a estruturar decisões de forma reutilizável entre os dois produtos e criou uma linguagem compartilhada para Design, Engenharia, Produto e QA. Mais tarde, ela revelou potencial para servir como contexto em experimentos com IA.
Meu papel: Product Designer
Produtos: Neotrust e Aftersales
Escopo: Arquitetura, tokens, governança e integração Design e Engenharia
Ferramentas: Figma, Figma MCP, Storybook, GitHub e Azure DevOps
Uma arquitetura, múltiplos produtos
Ao longo da evolução da plataforma, percebemos que o principal desafio já não era criar novos componentes. Era manter decisões consistentes entre diferentes produtos, marcas, temas, times e tecnologias.
O que começou como uma iniciativa para reorganizar um Design System acabou se tornando o redesenho da arquitetura que sustentava toda a experiência da plataforma. A arquitetura passou a sustentar fluxos de Neotrust e Aftersales sobre a mesma fundação, com expectativa de expansão futura.
Essa arquitetura passou a funcionar como uma linguagem compartilhada, capaz de conectar Design, Engenharia, Produto, QA e agentes de IA à mesma fonte de verdade.
Destaques do projeto
Arquitetura baseada em Design Tokens em quatro camadas (Global, Brand, Semantic, Component).
Multiproduto (Neotrust e Aftersales) sobre a mesma fundação, com identidades distintas.
Suporte a Light/Dark, campanhas sazonais e múltiplos dispositivos, tudo via tokens — sem multiplicar bibliotecas.
IA consumindo a arquitetura para reconstruir componentes com maior consistência.
Responsabilidades
Conduzir a descoberta do problema e mapear sintomas de inconsistência estrutural.
Formular a tese de que o problema central não eram componentes, mas decisões.
Definir a arquitetura de Design Tokens em quatro camadas (Global, Brand, Semantic, Component).
Criar princípios de governança para impedir o retorno ao crescimento descontrolado.
Co-liderar a implementação com Engenharia (tokens, integração em repositórios, Storybook).
Desenhar experimentos de IA consumindo a arquitetura para reconstruir componentes.
Documentar o case e estruturar a narrativa para toda a organização.
O desafio em uma frase
Como criar um Design System que pudesse evoluir continuamente sem que sua complexidade crescesse na mesma velocidade dos produtos?
Quando o sistema deixa de escalar
Toda arquitetura nasce de um problema. Esta nasceu quando percebemos que nosso Design System já não acompanhava a velocidade de evolução da plataforma.
O contexto
O Design System havia sido criado para promover consistência e acelerar desenvolvimento. Por algum tempo, essa estratégia funcionou: mais componentes, mais variantes, mais regras.
Conforme o ecossistema amadurecia, tornou-se evidente que o aumento da biblioteca não estava reduzindo a complexidade; ela apenas mudava de lugar. Cada nova necessidade gerava exceções, cada nova marca introduzia personalizações e cada novo contexto exigia adaptações.
O Design System continuava crescendo, mas sua capacidade de organizar decisões diminuía gradualmente.
Sintomas no dia a dia
Os problemas surgiam em decisões aparentemente pequenas:
uma alteração simples exigia mudanças em diversos componentes;
novas identidades visuais levavam à criação de variantes específicas;
componentes semelhantes apresentavam diferenças sutis de comportamento ou aparência.
Individualmente, pareciam inofensivos. Coletivamente, mostravam que a arquitetura havia deixado de ser uma fonte de verdade compartilhada.
A complexidade cresceu quando diferentes produtos passaram a acumular decisões duplicadas, variações locais e conexões difíceis de manter.
Quando a inconsistência deixa de ser visual
Inicialmente, tratamos o problema como puramente visual. Ao aprofundar a investigação, percebemos que ele era estrutural.
As diferenças não estavam apenas nas interfaces; estavam nas decisões. Cada equipe interpretava conceitos semelhantes de maneiras diferentes. Uma mesma intenção gerava implementações distintas. Design, Engenharia e Produto discutiam soluções usando linguagens diferentes.
O Design System continuava organizando componentes. Mas já não organizava decisões.
Nossa primeira hipótese e por que não funcionou
Como acontece em muitos Design Systems em crescimento, a hipótese inicial parecia lógica: talvez faltassem componentes, documentação ou uma reorganização da biblioteca.
Por algum tempo seguimos esse caminho e reorganizamos arquivos, revisamos componentes, refatoramos estruturas, melhoramos documentação. Essas iniciativas geraram ganhos pontuais, mas não resolveram a origem do problema.
A cada novo produto, a complexidade voltava a crescer.
A descoberta: as decisões estavam no lugar errado
Até então, nossa principal pergunta era:
Como organizar melhor nossos componentes?
Os sintomas apontavam para outra direção. Os componentes continuavam funcionando; o que havia deixado de escalar eram as decisões que definem esses componentes.
Foi nesse ponto que formulei uma nova tese:
Componentes são consequência. Decisões são causa.
Pela primeira vez, deixamos de investigar a biblioteca. Passamos a investigar a arquitetura que sustentava suas decisões.
Componentes eram apenas a expressão visível de um problema mais profundo: decisões de design acopladas e difíceis de evoluir.
Resistência inicial: por que investir em "mais um Design System"?
Antes de redesenhar qualquer arquitetura, houve uma barreira menos técnica. Stakeholders de negócio e equipes com backlog cheio questionavam:
"Se já temos um Design System em Figma, por que mexer nisso em vez de focar em novas features?"
Essa dúvida é comum: muitos design systems são vistos como iniciativas de UI, não como alavancas de produto.
Minha resposta não poderia ser apenas estética. Reestruturei a conversa em torno de três eixos:
Custo invisível de manutenção — casos em que mudanças de identidade visual exigiam revisões manuais em dezenas de componentes.
Risco de inconsistência entre produtos — situações em que Neotrust e Aftersales, compartilhando intenções semelhantes, apresentavam comportamentos diferentes por acúmulo de exceções.
ROI em velocidade futura — como uma arquitetura de decisões reduziria o custo de mudança para cada novo produto, marca ou tema, funcionando como investimento em agilidade.
Ao trocar "refazer o Design System" por "diminuir o custo de mudança para toda a plataforma", a conversa deixou de ser sobre componentes e passou a ser sobre estratégia.
Uma arquitetura para escalar decisões
Com a tese clara (organizar decisões, não componentes), o próximo passo foi transformá-la em arquitetura.
Encontrando a menor unidade de decisão
A primeira decisão arquitetural foi identificar qual seria a menor unidade capaz de representar uma escolha de design independentemente de um componente específico. Essa unidade precisava existir antes do Button, do Input, do Card, da própria interface.
Design Tokens ofereciam exatamente essa característica. Eles permitiam representar decisões fundamentais (cor, tipografia, espaçamento, raio, elevação) de forma abstrata, reutilizável e independente da implementação final.
Ao deslocar o foco da camada visual para a camada semântica, deixamos de pensar em "como o componente parece" e passamos a pensar em "qual decisão ele representa".
Organizando responsabilidades
Representar decisões não era suficiente. Também era necessário saber quem é responsável por qual delas.
Percebemos que as decisões se organizavam em níveis de abstração diferentes:
valores permanentes da plataforma;
identidade visual de cada marca;
significado semântico;
contratos de componentes.
Misturar tudo na mesma camada era justamente o que fazia a complexidade explodir. A solução foi distribuir responsabilidades em níveis independentes.
As quatro camadas
A arquitetura foi estruturada em quatro camadas:
Global Tokens
valores fundamentais da plataforma.
Brand Tokens
identidade visual de cada marca (Neotrust, Aftersales).
Semantic Tokens
significado, não aparência.
Component Tokens
contrato entre componentes e a arquitetura.
Cada camada conhece apenas a camada imediatamente inferior. Essa separação reduz acoplamentos e torna a evolução previsível. Diferente de sistemas que resolvem marca só na camada semântica, isolamos Brand como camada própria porque Neotrust e Aftersales precisavam trocar identidade visual inteira sem duplicar as regras de significado — marca vira parâmetro de entrada da arquitetura, não uma bifurcação de regras.
Da decisão global ao componente: uma mesma fundação de tokens ganha identidade de marca, significado semântico e contexto de interação antes de ser consumida pelo Button.
Global Tokens
Global representa valores básicos, sem significado de marca atribuído:
escala de cinzas;
paleta base;
espaçamentos;
tipografia;
raios;
elevações;
animações.
Global não conhece marcas, componentes ou contextos específicos. Sempre que um valor realmente muda, é aqui que a alteração acontece. É a fundação da arquitetura.
Brand Tokens
Brand traduz Global para a identidade visual de cada marca. É aqui que Neotrust e Aftersales se diferenciam, sem duplicar componentes.
Cada marca define:
cores principais e de apoio;
tipografia institucional;
atributos de personalidade visual.
Marcas não precisam conhecer hexadecimais. Elas referenciam Global Tokens. Uma nova marca passa a existir alterando aliases em Brand, não componentes. Isso reduziu o tempo para lançar uma nova marca de cerca de 2–3 semanas de trabalho manual para 2–3 dias ajustando aliases.
Semantic Tokens
Semantic representa significado.
Ela não conhece valores concretos nem marcas, mas responde perguntas como:
qual é a cor de sucesso?;
qual é a superfície principal?;
qual é o texto secundário?;
qual é o estado crítico?
Em vez de color/purple/600, falamos em surface/action.
Marcas mudam. Significados permanecem.
Ao mudar o foco de cor para significado, desacoplamos comportamento da identidade visual.
Component Tokens
Component conecta a arquitetura ao componente.
Ela não define valores finais; apenas descreve quais decisões cada componente consome.
Um Button, por exemplo, conhece:
background;
text;
radius;
padding;
elevation;
typography.
Cada propriedade aponta para Semantic Tokens, que apontam para Brand, que apontam para Global. Component deixa de armazenar decisões e passa a consumi-las.
O que esta arquitetura suporta
Hoje, a mesma arquitetura sustenta:
Multiproduto
Neotrust e Aftersales compartilham a fundação de tokens, mantendo comportamentos alinhados mesmo com contextos de negócio diferentes.
Multibrand
identidades visuais distintas são resolvidas na camada Brand, sem duplicar componentes.
Multi-theme
Light, Dark e campanhas sazonais representam conjuntos diferentes de aliases, não novas bibliotecas.
Multi-device
decisões de espaçamento, tipografia, densidade e área de toque são centralizadas, permitindo adaptação responsiva entre desktop, tablet e mobile sem proliferar variantes.
Multi-consumers
Design, Engenharia, Produto, QA e agentes de IA consomem a mesma linguagem arquitetural como fonte de verdade.
Como um componente é construído (Button)
Depois de estruturar a arquitetura, precisávamos garantir que os componentes respeitassem a separação. Abandonamos a prática de armazenar valores diretamente dentro dos componentes.
Antes:
Button conhecia #5B3FD9, 16px, 8px, Inter SemiBold, rgba(...) — uma entre 12 variações do mesmo componente espalhadas entre os dois produtos, cada uma com pequenas diferenças de cor, raio ou tipografia.
O componente não armazena um valor visual diretamente.
button/primary/bg aponta para surface/action/rest, que já carrega o significado (ação) e o estado (repouso) da decisão — estados como hover, pressed e disabled existem como variantes do mesmo token semântico, não como uma camada à parte.
No modo Aftersales / Light, surface/action/rest herda a identidade visual em brand/primary e resolve no primitivo global color/purple/600.
O Button deixa de ser o lugar onde a decisão nasce. Ele passa a ser o lugar onde uma decisão compartilhada é consumida.
A resolução dos aliases varia por marca e tema. Neste exemplo, utilizamos Aftersales / Light, que percorre a cadeia completa entre componente, semântica, marca e valor global, resolvendo em #8F44F7.
Uma decisão arquitetural feita em um único ponto pode se propagar pela fundação compartilhada e alcançar diferentes produtos e contextos.
De sistema a infraestrutura compartilhada
A arquitetura de tokens não tinha valor por si só. Ela precisava sair do diagrama e entrar na rotina.
Uma única fonte de verdade
Antes da arquitetura, decisões estavam espalhadas:
arquivos de Figma;
documentação paralela;
código;
conversas em Slack;
conhecimento tácito.
Depois, tokens passaram a representar:
propósito claro;
responsabilidade definida;
origem conhecida;
cadeia previsível de dependências.
Isso reduziu interpretações subjetivas. Discussões deixaram de depender de "como cada um sempre fez" e passaram a se apoiar na mesma linguagem.
Governança como parte da arquitetura
Uma arquitetura não permanece consistente sozinha. Ela precisa de regras claras para evoluir.
Definimos critérios que toda nova contribuição deveria respeitar:
esta decisão realmente pertence a esta camada?;
já existe token equivalente?;
estamos resolvendo um problema da plataforma ou criando exceção local?;
qual impacto dessa decisão em Neotrust, Aftersales e futuros produtos?
O mesmo critério que avaliava a entrada de um token também se aplicava à saída: remover um token passava por aviso prévio às equipes consumidoras antes da exclusão.
Componentes deixaram de ser resposta automática. A primeira pergunta passou a ser:
"Esta necessidade representa uma nova decisão, um novo token ou apenas uma combinação do que já existe?"
Integrando Design e Engenharia
Como Design e Engenharia passaram a trabalhar sobre a mesma estrutura de decisões, muitas conversas deixaram de acontecer em nível visual. As discussões migraram para significados, responsabilidades e contratos entre camadas.
Design deixou de entregar apenas telas. Engenharia deixou de receber apenas especificações. Ambos passaram a compartilhar o mesmo vocabulário arquitetural, com Storybook como interface comum.
Na prática, os tokens viviam como Variables nativas do Figma — o plano pago do Tokens Studio não estava no orçamento, e a versão gratuita não cobria o que a arquitetura exigia. A ponte até o código era o MCP do Figma: agentes de IA liam as Variables diretamente do arquivo de design e geravam os artefatos consumidos pelos produtos, versionados no GitHub. A mesma infraestrutura que mais tarde alimentou os experimentos de IA já nascia sendo lida por máquinas.
Storybook como interface da arquitetura
A arquitetura precisava ser acessível para diferentes públicos. O Storybook cumpriu esse papel.
Mais do que um catálogo de componentes, passou a funcionar como uma camada de visualização da arquitetura:
designers navegam por componentes e estados;
desenvolvedores validam contratos visuais e interações;
QA verifica estados previstos e comportamento consistente;
Produto utiliza a mesma referência em discussões de solução.
Documentação e implementação deixaram de evoluir em trilhas separadas. O que estava na arquitetura era o que estava no Storybook. O que estava no Storybook era o que chegava em produção.
Uma mesma decisão de design pode ser consumida por Design, Engenharia, Produto, QA, IA e diferentes produtos sem perder seu significado.
Uma fundação compartilhada conecta produtos, camadas de decisão e consumidores, criando condições para mais consistência, colaboração e evolução.
Por que o Design System não saía do Figma
Mesmo com um Design System documentado, desenvolvedores frequentemente não o utilizavam como referência principal. Na prática, o sistema existia em Figma; o código seguia caminhos próprios.
Conversas com Engenharia revelaram padrões conhecidos:
poucos devs para muito backlog;
pressão por entrega de features;
documentação vista como etapa extra;
gap entre a linguagem de Figma e a linguagem do código.
Em muitos casos, o caminho mais rápido era copiar o que já estava funcionando, mesmo que inconsistente, em vez de consultar o Design System.
Tratei isso como sinal, não como falha individual. Um Design System não é adotado por ser "correto"; ele precisa ser mais rápido e mais previsível do que o atalho.
Essa percepção influenciou diretamente a forma como desenhei a arquitetura: ela precisava nascer onde devs realmente trabalham (tokens, repositórios, Storybook), não apenas em Figma.
A consequência inesperada: IA
A arquitetura não nasceu para IA. Ela nasceu para organizar decisões.
Quando decisões passaram a ter nomes, responsabilidades e dependências explícitas, surgiu uma consequência que não fazia parte do escopo inicial: a mesma estrutura que ajudava pessoas a interpretar componentes também poderia oferecer contexto para máquinas.
Da interface gerada por prompt à interface guiada pela arquitetura
Durante o desenvolvimento deste case, surgiu uma pergunta:
"Se um desenvolvedor consegue compreender um componente a partir dos seus tokens, será que um modelo de IA também conseguiria?"
Grande parte das discussões sobre IA aplicada a design estava concentrada em gerar interfaces por prompt, produzir imagens ou gerar código. Pouco se falava sobre a qualidade da informação consumida pelos modelos.
Decidimos inverter a lógica. Em vez de pedir para a IA "inventar" uma interface, passamos a fornecer a própria arquitetura como contexto.
Experimento 1: sem arquitetura
No primeiro experimento, solicitamos que um modelo de IA reconstruísse um Button apenas com uma descrição textual:
criar um botão primário;
utilizar a identidade visual da empresa;
incluir estado hover;
seguir boas práticas de acessibilidade.
O resultado era funcional, mas apresentava inconsistências: espaçamentos diferentes, hierarquia tipográfica diferente, contrastes imprecisos, estados inconsistentes. Cada nova execução variava detalhes.
Embora visualmente aceitáveis, essas diferenças acumulavam inconsistências na interface.
Experimento 2: com arquitetura
No segundo experimento, utilizamos exatamente o mesmo prompt. A única diferença foi fornecer ao modelo a estrutura de tokens que descrevia o Button, incluindo a cadeia:
Em vez de decidir sozinho qual valor visual utilizar, o modelo passou a reconstruir o componente a partir da arquitetura fornecida.
No exemplo Aftersales / Light, o contexto incluía o token de componente, os aliases semânticos, a referência de marca e o valor global resolvido. Assim, as decisões deixaram de depender apenas da interpretação do modelo e passaram a depender de contratos explícitos do sistema.
Reconstruindo componentes a partir dos tokens
Em um terceiro passo, testamos um cenário mais extremo. Exportamos apenas os tokens relacionados ao Button, sem screenshots, sem arquivos de Figma e sem código.
O modelo recebeu apenas a estrutura de tokens e foi instruído:
"Reconstrua este componente respeitando a arquitetura descrita."
O resultado apresentou aderência relevante à estrutura fornecida, embora ainda exigisse ajustes. Pequenos ajustes ainda eram necessários, mas a maior parte das decisões foi corretamente interpretada.
O componente deixou de ser apenas um artefato visual. Passou a ser consequência direta da arquitetura.
O que mudou com a IA
Esses experimentos modificaram a forma como passamos a enxergar o Design System. Antes, os consumidores eram apenas pessoas.
Agora, também existem consumidores automatizados:
agentes de IA;
assistentes internos;
geradores de interface;
ferramentas de documentação;
validadoras automáticas.
A arquitetura deixou de organizar apenas componentes. Passou a organizar conhecimento.
Arquiteturas bem estruturadas não escalam apenas produtos. Elas escalam conhecimento.
Limites do experimento
Este foi um experimento exploratório, não uma validação científica nem uma promessa de geração autônoma de interfaces. O principal aprendizado foi que arquitetura estruturada melhora a qualidade do contexto disponível para futuros fluxos de automação e assistência.
A IA não foi o ponto de partida. Foi a consequência de tornar decisões legíveis.
O que mudou
O verdadeiro sucesso deste projeto não foi apenas a arquitetura criada, mas a mudança na forma como a organização passou a tomar decisões sobre seus produtos.
Novos produtos passaram a reutilizar a mesma fundação arquitetural. A evolução deixou de depender da criação contínua de novos componentes.
Neotrust e Aftersales passaram a compartilhar tokens globais, semântica de superfícies e ações e contratos de componentes. Isso reduziu a necessidade de criar bibliotecas independentes para cada produto. Ao todo, cerca de 35 a 40 componentes core passaram a consumir a arquitetura de tokens.
Manutenção
Alterações passaram a ocorrer nas camadas responsáveis por cada decisão. Rebranding atua principalmente em Brand Tokens; ajustes de acessibilidade em Semantic; atualizações tipográficas em Global.
Essa reorganização criou condições para reduzir retrabalho e tornar mudanças mais previsíveis, além de diminuir efeitos colaterais durante evoluções da interface.
Consistência
Produtos diferentes passaram a compartilhar os mesmos significados, mesmo com identidades visuais distintas. Decisões como "ação primária", "erro crítico" ou "sucesso" são expressas pela mesma semântica, independentemente da marca. Relatos de inconsistência visual entre produtos caíram de cerca de 8–10 por trimestre para 1–2.
Colaboração
Design, Engenharia, Produto e QA passaram a discutir utilizando uma linguagem comum. As conversas deixaram de focar em valores específicos (hexadecimais, pixels) e passaram a focar em responsabilidades e significados. Ao todo, 2 produtos e essas 4 disciplinas passaram a operar sobre uma única arquitetura compartilhada, em vez de bibliotecas isoladas por produto — à qual a IA se juntou depois, como consumidora, tornando-se a 5ª disciplina conectada.
Evolução
A plataforma tornou-se preparada para incorporar novas marcas, novos temas e novos produtos sem exigir mudanças estruturais na arquitetura. A cada nova necessidade, a pergunta deixou de ser "que componente precisamos criar?" e passou a ser "que decisão precisa passar a existir?".
Antes e depois
Uma forma objetiva de explicar o impacto é comparar como decisões semelhantes eram tratadas antes e depois do projeto.
Antes
Depois
Componentes concentravam regras visuais e decisões de negócio.
Componentes passaram a consumir decisões da arquitetura.
Alterações exigiam revisar múltiplos componentes.
Alterações acontecem na camada responsável pela decisão.
Marcas frequentemente geravam duplicações de componentes.
Marcas reutilizam a mesma arquitetura via Brand Tokens.
Conhecimento distribuído entre pessoas e documentos.
Conhecimento estruturado em uma arquitetura compartilhada.
Discussões focadas em implementação local.
Discussões focadas em decisões e responsabilidades.
Trade-offs
Toda arquitetura envolve escolhas. Ao estruturar decisões em camadas independentes, também surgiram desafios.
Entre eles:
curva inicial de aprendizado para equipes (designers, devs, PMs precisaram compreender o vocabulário de tokens);
necessidade de uma governança consistente para evitar exceções desnecessárias;
maior investimento inicial na definição de responsabilidades por camada;
disciplina para manter novos requisitos alinhados à arquitetura, em vez de soluções pontuais.
Consideramos esses custos aceitáveis diante dos ganhos obtidos em manutenção, previsibilidade, escalabilidade e capacidade de servir múltiplos consumidores (humanos e máquinas).
Se fosse recomeçar hoje
Se este projeto começasse hoje, algumas decisões seriam diferentes.
Eu:
envolveria Engenharia ainda mais cedo nas discussões arquiteturais, incluindo trade-offs de implementação e performance;
estruturaria desde o início uma estratégia específica para consumo por agentes de IA, com contratos semânticos pensados também para modelos;
definiria métricas de sucesso mais claras para manutenção, consistência e tempo de entrega, monitorando-as desde os primeiros ciclos.
Os princípios fundamentais, entretanto, permaneceriam os mesmos. Continuaria priorizando decisões sobre componentes.
Componentes evoluem. Tecnologias mudam. Ferramentas são substituídas. Decisões bem estruturadas permanecem.
Aprendizados
Este projeto mudou profundamente minha forma de enxergar Design Systems. Antes dele, eu tendia a avaliar maturidade pela qualidade dos componentes.
Hoje, entendo que componentes representam apenas a camada visível de uma arquitetura muito maior. A verdadeira escalabilidade nasce quando decisões deixam de estar implícitas e passam a fazer parte de um sistema compreensível por toda a organização.
Arquiteturas bem definidas escalam conhecimento, não apenas interface. Essa visão passou a orientar meu trabalho em novos projetos de Design Systems, plataformas digitais e iniciativas com IA.
Uma infraestrutura capaz de crescer
Este case começou como uma iniciativa para evoluir um Design System. Terminou como o desenho de uma arquitetura compartilhada capaz de conectar Design, Engenharia, Produto, QA e Inteligência Artificial através da mesma fonte de verdade.
Mais do que organizar interfaces, essa arquitetura passou a organizar conhecimento. Essa talvez seja sua maior contribuição.
Plataformas escalam quando decisões são compartilhadas. E organizações evoluem quando essas decisões deixam de depender de pessoas específicas e passam a fazer parte da própria arquitetura.
Se você chegou até aqui, provavelmente compartilha o interesse por sistemas que vão além da interface e ajudam organizações inteiras a construir produtos de forma mais consistente, escalável e colaborativa. Esse continua sendo o tipo de desafio que mais me motiva como Product Designer.